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Conferência internacional debate transição energética diante de riscos globais

Evento na Colômbia reúne mais de 60 países para discutir estratégias contra dependência dos combustíveis fósseis

24/04/2026 às 20:14
Por: Redação

A cidade de Santa Marta, na Colômbia, sedia, desde sexta-feira (24), a primeira Conferência Internacional sobre a Transição para o Abandono dos Combustíveis Fósseis. O evento conta com representantes de mais de 60 países, unidos pelo objetivo de reduzir tanto a produção quanto o consumo e a dependência global de petróleo.

 

Durante o encontro, os debates servirão de base para a elaboração do Mapa do Caminho para o Abandono dos Combustíveis Fósseis, documento sugerido pela presidência do Brasil na 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30). Essa iniciativa tem como propósito oferecer diretrizes aos países para a transição energética e a diminuição das emissões de gases que intensificam o efeito estufa e contribuem para as mudanças climáticas.

 

Antes da viagem para participar das discussões, a diretora-executiva da COP30, Ana Toni, concedeu entrevista exclusiva sobre o papel da conferência e o desenvolvimento do documento orientador. Ela salientou que o contexto de guerra envolvendo o Irã e a instabilidade no preço internacional do petróleo evidenciaram os riscos inerentes à dependência dos combustíveis fósseis, ressaltando ainda a relevância estratégica da transição energética.

 

Infelizmente, a guerra contra o Irã, promovida pelos Estados Unidos e Israel, mostra que caminhar para longe dos combustíveis fósseis, dessa dependência que temos, é absolutamente necessário. Não só por questões climáticas, mas por questões econômicas, energéticas e de segurança.

 

Ana Toni afirmou que não havia uma previsão de que tais conflitos aconteceriam, mas acredita que o Mapa do Caminho se tornou uma plataforma para debater e reavaliar as questões de segurança energética, econômica e a dependência global dos combustíveis fósseis.

 

O documento, segundo previsão, será concluído em novembro, trazendo orientações sobre como implementar a transição energética. O prazo para contribuições ao texto orientador encerrou-se em 10 de abril, e mais de 250 propostas foram recebidas de países e entidades não estatais, demonstrando o grande interesse e necessidade de debater os próximos passos.

 

Participação brasileira e escuta ativa no evento

A presidência da COP30 participa da conferência em Santa Marta com o intuito principal de escutar. Ana Toni destacou que a intenção é absorver as demandas de países, sociedade civil, comunidades indígenas e demais atores presentes nos debates, para incorporar essas perspectivas ao processo de elaboração do Mapa do Caminho.

 

Ela explicou que a plataforma de debate já é, em parte, uma resposta às demandas identificadas durante a COP30, e ressaltou a relevância de eventos como o da Colômbia, promovido conjuntamente com os Países Baixos, para alinhar e ajustar o documento de acordo com as discussões multilaterais.

 

Estrutura do documento e desafios da transição

Ana Toni detalhou que o documento orientador está estruturado em capítulos. O primeiro capítulo trata dos riscos de não realizar a transição energética, abordando aspectos climáticos, naturais, políticos, de segurança e demais ameaças. O segundo capítulo foca na perspectiva dos produtores de combustíveis fósseis, incluindo países e empresas, além de analisar o ponto de vista dos consumidores, como os setores de eletricidade, transporte e indústria. O impacto da dependência e as oportunidades para acelerar a transição são temas centrais desse bloco.

 

O terceiro capítulo aborda a dependência econômica, evidenciando que as circunstâncias variam de país para país. Ana Toni ressaltou a importância de mostrar que governos subnacionais, como prefeituras, também enfrentam desafios econômicos associados à dependência dos combustíveis fósseis, não sendo essa uma questão apenas energética.

 

A última parte do documento apresentará recomendações globais, que não se destinam exclusivamente à COP31, mas a todos os países e atores envolvidos no processo de transição.

 

Implementação e diversidade de estratégias

Sobre a implementação das medidas acordadas na COP28 em Dubai, Ana Toni ressaltou que, embora o consenso seja necessário para a tomada de decisão, as etapas de execução não exigem unanimidade, visto que as estratégias de transição podem variar conforme as realidades nacionais. Alguns países podem priorizar a eletrificação, enquanto outros avançam com combustíveis sustentáveis.

 

Como [o presidente da COP30] André do Lago tem repetido bastante, para tomar a decisão, você precisa de consenso, mas, para a implementação, você não precisa de consenso. Até porque, para alguns países, vai fazer mais sentido trabalhar pela eletrificação. Em outros, vai ser importante o combustível sustentável.

 

Ela também lembrou que três em cada quatro pessoas no mundo vivem em países importadores de combustíveis fósseis, o que torna a participação dos 60 países na conferência altamente significativa. Ana Toni citou o exemplo da Etiópia, que decidiu interromper a importação de carros a combustão, e afirmou que a superação da dependência global é uma questão comum para produtores e consumidores.

 

Segundo ela, o processo de amadurecimento das estratégias é necessário porque a decisão de transitar para longe dos combustíveis fósseis já foi tomada, mas os caminhos concretos ainda precisam ser definidos e ajustados de acordo com os contextos nacionais e locais.

 

Ela reconheceu o desafio de organizar e priorizar as inúmeras informações recebidas, pois as recomendações dependerão das circunstâncias específicas de cada país. Planejar essa transição é fundamental, pois a falta de planejamento pode resultar em impactos negativos globais, como os atualmente observados.

 

Perspectiva de uma transição global justa

Ana Toni avaliou que o processo de transição energética já está em curso. Ela comparou o cenário a dois pés no acelerador: um impulsionando as renováveis, o armazenamento e a eficiência, e outro ainda sustentando os combustíveis fósseis. O objetivo destacado por ela é desacelerar o uso dos combustíveis fósseis, algo que já teve início.

 

Eu não tenho nenhuma dúvida que essa mudança tem que ser justa, porque, se não, ela não vai acontecer. Eu acho que a gente tem uma oportunidade única de continuar debatendo esse tema. Vai ter aí COP31, COP32, vai ter o segundo Balanço Global, para que a gente amadureça o que está funcionando. Para a gente chegar nesse novo Balanço Global muito mais capazes de falar o que deve e pode ser acelerado daqui para frente.

 

Demonstrando otimismo, ela reforçou a importância de manter o tema da transição energética no debate político internacional, para que as decisões corretas sejam tomadas de acordo com a evolução dos conhecimentos e das experiências globais.

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