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Brasil busca reduzir tempo de voo para Senegal e fortalecer laços comerciais

Governo brasileiro negocia novas rotas aéreas para Dacar e amplia cooperação agrícola com Senegal

22/04/2026 às 13:45
Por: Redação

O governo brasileiro está empenhado em encurtar o tempo de viagem aérea entre o Brasil e a capital do Senegal, Dacar, situada na Costa Oeste africana. Atualmente, passageiros que viajam entre os dois países enfrentam a ausência de voos diretos, sendo frequentemente obrigados a fazer conexões em locais como Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, o que aumenta consideravelmente a duração do trajeto.

 

Existem ainda rotas alternativas que envolvem paradas em aeroportos europeus ou em cidades africanas distantes da América do Sul. Em linha reta, Natal, no Rio Grande do Norte, está a 2,9 mil quilômetros do Senegal. A distância entre a capital potiguar e Lisboa é quase o dobro, enquanto até Dubai o percurso é quase quatro vezes maior.

 

A iniciativa do Brasil para reduzir a duração da viagem foi confirmada pela embaixadora brasileira no Senegal, Daniella Xavier. Ela destacou que aprimorar a conectividade é essencial para ampliar o comércio e o turismo, não apenas entre Brasil e Senegal, mas também com outros países da África Ocidental, América Latina e Caribe.

 

“Temos que continuar a trabalhar nesse sentido, pois não é lógico que tenhamos que ir à Europa para vencer menos de 3 mil km! Imaginem a redução dos tempos de voo e nos custos também em benefício dos demais países da África Ocidental, da América Latina e do Caribe”, declarou a diplomata.


 

Daniella Xavier participou do Fórum Internacional de Dacar sobre Paz e Segurança na África, realizado na cidade senegalesa nos dias 20 e 21, que conta com quase 4 milhões de habitantes.

 

Conectividade e desafios para turismo e comércio

 

Segundo a representante brasileira, há um ciclo vicioso a ser superado: a baixa escala do comércio e do turismo decorre da falta de conexões aéreas, enquanto a ausência dessas conexões está ligada à baixa demanda.

 

A embaixadora relatou reuniões recentes com o ministro das Infraestruturas e dos Transportes do Senegal, Yankhoba Diémé, e com a direção da Air Senegal, companhia aérea estatal do país africano. Ela ressaltou a necessidade de estimular parcerias entre empresas brasileiras de aviação – todas privadas – e a Air Senegal, bem como companhias de outros países africanos, como Marrocos, Etiópia e Turquia, por meio de acordos de codeshare. Esse modelo permite que empresas diferentes comercializem passagens para voos operados umas pelas outras.

 

Histórico e diplomacia entre os países

 

Daniella Xavier ressaltou a relação considerada excelente entre as duas nações, cujos laços remontam à época do tráfico transatlântico de escravizados. O Senegal, que conquistou a independência da França no início da década de 1960, possui vínculos profundos com o Brasil, refletidos na presença da Ilha de Gorée, local de destaque no tráfico de pessoas negras para as Américas.

 

A embaixada brasileira em Dacar foi inaugurada em 1961 e, dois anos depois, o Senegal abriu sua representação diplomática em Brasília, sendo esta a única em toda a América do Sul.

 

Dados do comércio bilateral e oportunidades de negócios

 

Em 2025, o volume de comércio entre Brasil e Senegal alcançou 386,1 milhões de dólares, sendo o saldo positivo de 370,8 milhões de dólares para o Brasil, conforme o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. Isso indica que o Brasil exporta bem mais para o Senegal do que importa do país africano.

 

“O Senegal ainda exporta pouco para o Brasil. Poderia, por exemplo, investir na exportação de amendoim e derivados das flores do nenúfar, como produtos gourmet, assim como tecidos, produtos artesanais, entre outros”, avaliou a embaixadora.


 

A diplomata afirmou que há tendência de crescimento no comércio entre os países e que estão sendo realizados esforços para ampliar investimentos conjuntos. No último ano, uma delegação de 50 empresários brasileiros esteve em missão no Senegal.

 

Setor agroindustrial e transferência de tecnologia

 

Entre os investimentos em destaque, está o anúncio feito em outubro do ano passado da criação da primeira indústria de genética agrícola no Senegal, com o objetivo de produzir 30 milhões de ovos e 400 mil aves reprodutoras. O valor inicial do investimento é de 20 milhões de dólares.

 

A empresa brasileira West Aves lidera a iniciativa, em parceria com sócios africanos. A previsão é de geração de 300 empregos diretos e 1 mil indiretos, além da transferência de tecnologia para o Senegal.

 

“Caso bem sucedido, o projeto poderá permitir a autossuficiência total do país na produção de aves e a redução de 20% de seus custos para o consumidor final”, afirmou a embaixadora.


 

Também estão em andamento acordos para levar ao Senegal tecnologias brasileiras no setor agropecuário, iniciativas para programas de merenda escolar e projetos na área de defesa.

 

Cooperação internacional e defesa de reformas globais

 

A diplomata brasileira destacou que a relação entre Brasil e Senegal ganhou novo dinamismo, principalmente diante do atual cenário internacional. Ela defendeu a ampliação da coordenação política entre países que têm posições semelhantes em questões multilaterais, bem como a busca por alternativas comerciais conjuntas.

 

Entre os interesses comuns, está a defesa por reformas em instituições internacionais, como o Conselho de Segurança das Nações Unidas, pauta antiga tanto do Brasil quanto dos países africanos. Atualmente, apenas cinco países têm assento permanente e direito a veto nesse conselho: Rússia, Estados Unidos, China, Reino Unido e França. Nenhum deles pertence à América do Sul ou ao continente africano. O Conselho de Segurança é responsável por impor sanções internacionais e autorizar intervenções militares.

 

Senegal enfatiza diálogo e cooperação regional

 

Durante o Fórum Internacional de Dacar sobre Paz e Segurança na África, a embaixadora do Senegal no Brasil, Marie Gnama Bassene, ressaltou o papel de seu país na promoção da confiança, no fortalecimento de alianças e na prevenção de conflitos, sempre por meio do diálogo. O objetivo, segundo ela, é fomentar e manter a paz tanto em sua região quanto em todo o continente africano.

 

Marie Gnama Bassene lembrou que o Senegal possui uma longa tradição de participação em missões de paz da ONU e da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (Cedeao), que reúne 12 países. Ela fez um paralelo entre o compromisso senegalês e a tradição diplomática do Brasil.

 

“Ao observar a situação do Brasil e suas relações com seus vizinhos na América do Sul, não posso deixar de perceber muitas semelhanças com o Senegal”, afirmou à imprensa.


 

Em sua análise, tanto o Brasil quanto o Senegal compartilham valores como o multilateralismo, a diplomacia, a promoção da paz e da segurança, além da busca pela resolução pacífica de conflitos por meio do entendimento e da consulta.

 

No período de 2026 a 2030, o Senegal assumirá a presidência da Comissão da Cedeao, órgão executivo da comunidade. O país também integra a Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (Zopacas), aliança formada por mais de 20 países, em sua maioria africanos, dedicada à manutenção da paz e à prevenção de disputas geopolíticas na parte Sul do Oceano Atlântico. Recentemente, o Brasil assumiu a liderança deste grupo em evento realizado no Rio de Janeiro.

 

Para a embaixadora senegalesa, a colaboração entre Brasil e Senegal é "forte, estável e duradoura, marcada por quase 65 anos de relações diplomáticas, com visões convergentes sobre a maioria das questões internacionais".

 

Papel do Brasil na promoção da paz africana

 

Embora o Fórum seja focado na África, o encontro contou com a participação de chefes de Estado, ministros e diplomatas de 38 países, entre eles representantes de 18 das 54 nações africanas.

 

Durante coletiva ao final do evento, o ministro da Integração Africana, dos Negócios Estrangeiros e dos Senegaleses no Exterior, Cheikh Niang, foi questionado sobre como o Brasil, país de grande herança africana, poderia contribuir para a segurança e a paz no continente africano.

 

“Acho que o simples fato de participar de uma discussão, apresentar ideias e fazer propostas já é útil”, respondeu Niang.


 

O ministro acrescentou que, sob esse ponto de vista, a participação brasileira é tanto desejada quanto bastante útil para a qualidade dos trabalhos realizados.

 

O envio de repórter para o evento ocorreu a convite do Ministério da Integração Africana, dos Negócios Estrangeiros e Senegaleses no Exterior.

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