A capital paulista foi palco de um protesto neste sábado (18) contra a utilização de uma Escola Municipal de Educação Infantil (Emei) como locação para um filme da produtora Brasil Paralelo. A obra cinematográfica é acusada de veicular uma mensagem difamatória contra o ensino público e o renomado educador Paulo Freire, reconhecido como patrono da Educação Brasileira.
A manifestação, configurada como uma aula pública, aconteceu na Praça Roosevelt. O local escolhido foi em frente à Emei Patrícia Galvão (Pagu), a instituição de ensino onde a produtora realizou as filmagens para o longa-metragem intitulado Pedagogia do Abandono, que ainda não foi lançado.
A Brasil Paralelo, conhecida por seu alinhamento com a extrema-direita e por produzir conteúdo com essa orientação ideológica, já enfrentou controvérsias judiciais. Colaboradores da empresa foram alvo de ações legais em razão de um projeto anterior, o filme A Investigação Paralela: o Caso Maria da Penha.
A Justiça do Ceará, após analisar uma denúncia apresentada pelo Ministério Público do estado, aceitou a acusação e tornou dois indivíduos ligados à produtora réus. Eles são suspeitos de envolvimento em uma campanha de incitação ao ódio direcionada a Maria da Penha, figura emblemática na defesa dos direitos das mulheres e na luta contra a violência doméstica.
“A gente está aqui para dizer que Paulo Freire está presente. Ele está presente nas nossas escolas, nos nossos pensamentos, nos nossos estudos, e não só na EMEI Patrícia Galvão. Ele está presente na cidade toda, no Brasil a fora e fora do Brasil inclusive”, declarou Sandra Regina Bouças, diretora da Emei Patrícia Galvão.
A diretora Sandra Regina Bouças optou por não conceder entrevistas à imprensa, mas divulgou uma carta em suas redes sociais. No documento, ela expressou seu questionamento sobre a produção, que utilizou imagens gravadas no interior da escola. As permissões para as filmagens foram concedidas pela prefeitura da cidade de São Paulo.
Na carta, Sandra Bouças detalhou que o projeto parece ter como objetivo "destruir a educação pública" e "difamar a imagem de Paulo Freire", valendo-se de "identificações muito equivocadas". Ela também levantou a hipótese de que a iniciativa poderia ser uma tentativa de "contribuir com as ideias de que a terceirização/privatização da Educação Infantil seria a solução para uma educação de qualidade", insinuando um viés ideológico.
A diretora da Emei Patrícia Galvão revelou que foi surpreendida pela informação sobre a produtora responsável. Segundo seu relato, ela só tomou conhecimento de que a Brasil Paralelo estava envolvida na noite anterior à data agendada para as gravações. A surpresa ocorreu ao receber um termo de anuência que identificava a Brasil Paralelo como a empresa por trás do projeto.
Sandra Bouças descreveu a produtora como "responsável por vídeos de caráter marcadamente ideológico", cujas diversas produções "têm por objetivo descaracterizar e objetificar o ensino público pejorativamente".
Denise Carreira, professora da Faculdade de Educação da USP (FEUSP) e reconhecida educadora popular, manifestou que a obra em questão visa enfraquecer políticas públicas de caráter social e racial, além de comprometer a agenda de gênero.
“Precisamos estar atentas contra esse absurdo. E defender a escola democrática, a escola que promova uma educação transformadora baseada no pensamento, na trajetória, na ação de Paulo Freire”, enfatizou Denise Carreira.
Eduarda Lins, mãe de uma das crianças matriculadas na Emei, elogiou o trabalho dos funcionários da escola, mas criticou duramente a produtora e a administração municipal. Ela expressou sua indignação ao descobrir que a prefeitura "está disponibilizando um espaço público para uma empresa privada com fins, no mínimo, obscuros", salientando que a companhia "inclusive está sendo investigada pelo MP", o que lhe causou "dor no coração".
A Spcine, órgão municipal, esclareceu que o pedido para as filmagens foi devidamente recebido. Após uma análise técnica realizada pela SP Film Commission, a unidade encarregada de processar e encaminhar solicitações de filmagem, a autorização para as gravações foi concedida.
Em nota oficial, a Spcine informou que o procedimento adotado é padrão e idêntico ao utilizado em outras 253 solicitações feitas ao município para essa finalidade apenas em 2026. O órgão destacou que, no ano anterior, mais de mil gravações foram autorizadas. A Spcine também enfatizou que a verificação de aspectos legais, como o uso de imagem e a participação de menores de idade, é de total responsabilidade das produtoras envolvidas.
A Agência Brasil informou que tentou contato com a produtora Brasil Paralelo para obter um posicionamento, mas até o momento não obteve resposta.