A terceira edição do ato inter-religioso em homenagem a São Jorge será realizada no bairro Partenon, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, no dia 23 de abril, a partir das 8h. O evento, que reúne manifestações de diferentes crenças religiosas, ocorre pelo terceiro ano consecutivo e contará com atividades tanto dentro quanto fora da Igreja de São Jorge.
Enquanto missas serão realizadas no interior do templo católico, do lado externo, integrantes de religiões de matriz africana, ligados à Família Yecari do Terreiro de Batuque Sociedade Beneficente Cultural Oxum e Oxalá, prestarão bênçãos aos fiéis. Esta instituição, com mais de duas décadas de atuação, promove ações comunitárias especialmente na zona norte da capital.
Para os devotos, São Jorge, venerado no catolicismo, e Ogum, nas religiões de matriz africana, simbolizam coragem e força guerreira. A celebração do santo, tanto por católicos quanto por praticantes de religiões de matriz africana, mobiliza grande número de fiéis em todo o Brasil.
A trajetória religiosa de Roseli Debem Sommer, atualmente com 47 anos, ilustra a convivência entre diferentes práticas de fé. Ela cresceu em família católica, foi batizada, realizou a primeira comunhão, a crisma e se casou na Igreja Católica. Aos 19 anos, passou a integrar a religião de matriz africana, mantendo a figura de São Jorge como símbolo de proteção em situações desafiadoras.
“Minha falecida mãe sempre falava: te agarra no guerreiro, pede com bastante fé e com bastante coração, que tu pode ter certeza que ele vai te ouvir. São as palavras que sempre uso: que o grande guerreiro esteja sempre à frente das nossas batalhas”, disse, em entrevista.
Roseli, que faz parte da Família Yecari, informou que atos inter-religiosos acontecerão também em outras cidades gaúchas, como Rio Pardo e Santa Maria, levando a presença do grupo para novas regiões, o que, segundo ela, é considerado relevante e motivo de satisfação.
Durante o evento, é possível observar a devoção de quem vai até a igreja católica para render homenagens a São Jorge e encontra, ao mesmo tempo, o terreiro de matriz africana oferecendo bênçãos. Milhares de pessoas costumam transitar pelo local ao longo do dia.
A organização do 3º Ato Inter-religioso está a cargo de Pai Ricardo de Oxum, presidente da Sociedade Beneficente Cultural Oxum e Oxalá, e da Família Yecari, com o apoio do padre Sérgio Belmonte, pároco da Igreja de São Jorge. Pai Ricardo explicou que a celebração simboliza a resistência e as batalhas travadas pelas ancestralidades que, por muito tempo, não podiam praticar sua fé livremente.
“Só conseguiam professar a fé através das imagens da igreja católica [sincretismo]. Então, com São Jorge e todas as imagens dos santos, a gente tenta passar o simbolismo da matriz africana. São Jorge, Ogum e Nossa Senhora dos Navegantes, Iemanjá, são os santos mais populares do Brasil”, afirmou Pai Ricardo.
O evento convida a comunidade de matriz africana e todos os simpatizantes a conviverem com católicos num dia voltado à conexão espiritual e à celebração coletiva, promovendo a integração entre crenças e o respeito às diversas tradições religiosas. Pai Ricardo destacou que, segundo o último censo, o Rio Grande do Sul detém o maior número de adeptos de religiões de matriz africana no Brasil.
Ele também relatou que o estado gaúcho sempre apresentou elevado nível de racismo e que existia uma percepção distorcida por parte dos católicos em relação às religiões de matriz africana. “A família Yecari vem, ao longo de três anos, tentando quebrar este bloqueio e mostrar que as duas festas podem caminhar juntas. São Jorge e Ogum são louvados mundialmente e faz parte da tradição dos dois caminharem juntos”, analisou.
A programação do evento inicia com o tradicional banho de cheiro realizado pela Família Yecari, se estendendo até 18h30. Após uma procissão ao redor da igreja, acontece a lavagem das escadarias da Paróquia São Jorge, um ritual simbólico dedicado à purificação e à renovação das energias.
A religião conhecida como Batuque, típica do Rio Grande do Sul, tem suas raízes nos povos da Guiné, Benin e Nigéria e se concentra no culto aos orixás Oxalá, Bará, Ogum, Iansã, Xangô, Oba, Odé/Otim, Ossanha, Xapanã, Oxum e Iemanjá. De acordo com informações do grupo, o Batuque se diferencia da umbanda e do candomblé.
A Família Yecari, ao longo de sua história, já agregou mais de 50 mil membros no Brasil e em outros países da América Latina.