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ONG amplia monitoramento científico para preservar costões rochosos

Levantamento semestral identifica espécies e orienta uso sustentável em Arraial do Cabo

21/04/2026 às 15:16
Por: Redação

Em Arraial do Cabo, na Região dos Lagos do estado do Rio de Janeiro, mergulhadores e pesquisadores têm realizado um trabalho sistemático de contagem e identificação de peixes em um dos pontos de mergulho mais protegidos do litoral brasileiro. As atividades fazem parte de um levantamento subaquático, em que, a uma profundidade de 7 a 8 metros, os cientistas delimitam trechos de 20 metros para catalogar as espécies e o número de indivíduos encontrados. Durante esse processo, não é incomum que sejam acompanhados por tartarugas marinhas.

 

Além dos instrumentos utilizados para suas medições, os pesquisadores recorrem a uma cartela de cores específica, que possibilita avaliar a coloração dos corais, característica fundamental para determinar a saúde desses organismos. O conhecimento acumulado permite que, muitas vezes, a equipe nem precise consultar o catálogo de identificação de peixes, dada a familiaridade com a fauna local.

 

Esse levantamento do fundo do mar, que também ocorre nos litorais de Cabo Frio e Búzios a cada seis meses, será realizado anualmente em Angra dos Reis, localizada ao sul do estado, na região da Costa Verde.

 

O Projeto Costão Rochoso, desenvolvido pela Fundação Educacional Ciência e Desenvolvimento, uma organização não governamental (ONG), foi iniciado em 2017, quando pesquisadores da Universidade Federal Fluminense (UFF) passaram a atuar na Reserva Extrativista Marinha do Arraial do Cabo. O projeto ocorre em parceria com a Petrobras e abrange áreas marcadas pela diversidade biológica marinha.

 

Caracterização dos costões e sua importância ambiental

Os costões rochosos consistem em ecossistemas inseridos na transição entre terra firme e oceano, compostos por rochas e paredões que, em grande parte, permanecem submersos. Em alguns lugares, estão presentes como grandes pedras nas extremidades de praias, cobertas por vegetação acima da linha do mar. Em outros pontos, formam estruturas de grande porte, como a Pedra do Arpoador e o morro do Pão de Açúcar, ambos no Rio de Janeiro.

 

Esses ambientes exercem papel de abrigo e fonte de alimento para diversas formas de vida, incluindo organismos marinhos, aves e espécies adaptadas às zonas de entremarés – áreas que ora estão submersas, ora expostas conforme a maré. Entre os habitantes dessas regiões destacam-se cracas, mexilhões, algas e caranguejos.

 

Os costões predominam do Rio Grande do Sul ao Espírito Santo na metade superior do litoral brasileiro, com alguns fragmentos também identificados no Nordeste.

 

A bióloga marinha Juliana Fonseca, cofundadora do projeto, explica que a variedade de espécies na região é resultado da localização geográfica de Arraial do Cabo. Por situar-se em um ponto de interseção entre águas frias vindas do sul do Atlântico e águas quentes do Nordeste, o local oferece condições que favorecem a presença de diferentes espécies.

 

“A gente tem pelo menos 200 espécies de peixes. Todas as cinco espécies de tartarugas marinhas que ocorrem no Brasil passam aqui um tempo. Além disso, a gente tem diversas espécies de aves, de algas, uma infinidade”, descreve ela.


 

No litoral do Rio de Janeiro, há registros de espécies que podem ser encontradas no Caribe. O biólogo e mergulhador Marcos de Lucena destaca que, graças a essas condições, as águas de Arraial do Cabo apresentam maior biodiversidade do que o litoral nordestino, inclusive em relação ao arquipélago de Fernando de Noronha.

 

Reprodução e proteção de espécies ameaçadas

Os costões rochosos funcionam como áreas de reprodução natural, conhecidas como berçários, onde peixes de menor porte permanecem próximos às rochas por proteção. Um dos pontos monitorados de forma restrita, a Pedra Vermelha, só recebe visitas de pesquisadores devidamente licenciados para mergulho científico – uma autorização concedida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), órgão ligado ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.

 

Além dos peixes, o monitoramento conduzido pelo projeto já identificou a presença de corais, lulas e polvos. O coordenador-geral do projeto, biólogo marinho Moysés Cavichioli Barbosa, informa que, entre os animais acompanhados, existem diversas espécies sob risco de extinção.

 

“Em termos de animais ameaçados, a gente tem muita garoupa, mero, badejo, budiões, raias e tartarugas. Dentro das espécies que a gente trabalha, deve ter pelo menos umas 15 espécies com algum tipo de nível de ameaça. Tem espécies que só ocorrem aqui no Brasil”, diz.


 

Outro aspecto considerado no projeto é a orientação fornecida aos órgãos gestores sobre a realização de atividades como turismo e pesca. O monitoramento indica, por exemplo, que algumas espécies necessitam de períodos de moratória para garantir sua reprodução, como é o caso do budião.

 

“Tem algumas espécies que o ideal mesmo é ter uma moratória, por exemplo, não pode pescar por dois anos”, exemplifica o biólogo em relação ao budião.


 

Barbosa detalha que, para algumas dessas espécies, todos os indivíduos nascem fêmeas e, após certo tempo, um deles realiza a reversão sexual, tornando-se macho – geralmente o maior do grupo. Contudo, quando esse exemplar maior é capturado, o ciclo reprodutivo daquele ano pode ser prejudicado.

 

“Depois de um tempo, um deles faz a reversão sexual e vira macho. Normalmente o maior. E aí vem o pescador e puf! Mata o maior que tem. Então, naquele ano, aquela reprodução já ficou comprometida”, conta.


 

O projeto também reúne informações científicas para apoiar decisões de manejo, como o estabelecimento de distâncias seguras para a presença de turistas, limites para o ruído de motores de embarcações e pesquisas para determinar a que distância mergulhadores podem se aproximar de tartarugas marinhas sem provocar estresse nos animais.

 

Impactos das mudanças climáticas e monitoramento ambiental

O acompanhamento das condições nas áreas de entremarés, aquelas que ficam expostas durante a maré baixa, também integra as ações do projeto. Uma das linhas de pesquisa busca identificar as reações de organismos como algas e mexilhões diante de variações extremas de temperatura, fenômenos que têm se tornado mais frequentes segundo a bióloga marinha Isis Viana.

 

De acordo com Isis Viana, essas oscilações acentuadas de temperatura, conhecidas como extremos de calor, podem comprometer a sobrevivência de organismos que habitam as rochas, pois muitos não resistem a variações tão abruptas. Para monitorar essas alterações, o projeto utiliza sensores instalados nas rochas e boias oceanográficas que registram a temperatura durante 24 horas por dia.

 

Outro objetivo do projeto é quantificar com precisão a extensão do litoral brasileiro composta por costões rochosos, uma informação ainda não completamente definida.

 

Gestão sustentável e integração com comunidades

Nas reservas extrativistas, a legislação ambiental assegura o uso sustentável dos recursos naturais, protegendo os meios de subsistência das populações tradicionais. Em Arraial do Cabo, pescadores locais são autorizados a pescar, seja para consumo próprio ou para fins comerciais, enquanto a pesca industrial é proibida.

 

O agente de gestão socioambiental do ICMBio, Weslley Almeida, ressalta que muitas decisões sobre a gestão da reserva dependem de fundamentação científica, fornecida pela parceria com o Projeto Costão Rochoso.

 

Segundo Almeida, o objetivo da reserva é garantir que os recursos naturais estejam disponíveis para as próximas gerações de pescadores artesanais. Ele destaca que o ordenamento da atividade visa preservar tanto a pesca quanto as demais atividades ligadas à economia local.

 

O pescador José Antônio Freitas Batista, com experiência de 49 anos na região, ressalta que a pesca é fundamental para Arraial do Cabo e que a existência da reserva extrativista é essencial para a manutenção do equilíbrio entre a pesca e o turismo.

 

Para Batista, a pesca movimenta a economia, gerando oportunidades para fábricas de gelo, carpinteiros que cuidam das embarcações, mecânicos de motores, fabricantes de redes, anzóis e tarrafas e comerciantes locais, formando uma cadeia produtiva dependente da atividade pesqueira.

 

Além do monitoramento ambiental, a ONG realiza ações de sensibilização junto à comunidade de Arraial do Cabo. Periodicamente, são promovidos encontros em escolas e atividades de capacitação para pescadores e familiares, com o intuito de reforçar a importância do manejo responsável da reserva e da conservação dos costões rochosos.

 

O cientista do mar Yago Ferreira, que atua nos projetos educativos do Costão Rochoso, defende a necessidade de aproximar a ciência da sociedade. Segundo ele, é preciso fortalecer a compreensão coletiva sobre o ambiente marinho para promover sua proteção.

 

“A gente não consegue conhecer o que não entende e não entende o que está longe”, afirma o pesquisador.


 

O coordenador Moysés Barbosa acredita que, ao envolver a sociedade nas ações de conservação, é possível obter resultados mais efetivos do que aqueles restritos ao ambiente acadêmico ou às instâncias de gestão governamental.

 

“Isso é muito mais eficaz do que qualquer conhecimento acadêmico que sai apenas em artigo ou que vai apenas lá para Brasília, para um gestor. Trabalhar com a sociedade é muito mais eficiente”, justifica o coordenador.


 

Segundo informações da prefeitura de Arraial do Cabo, estudos técnicos estão em andamento para definir o limite de visitantes em praias e pontos turísticos da região, visando evitar a sobrecarga ambiental e aprimorar a experiência do turista. O município também informa que atua em conjunto com o ICMBio para fortalecer a fiscalização e o êxito das políticas públicas na reserva extrativista marinha.

 

Renovação de parcerias e investimentos para a conservação

Desde 2023, a Petrobras mantém parceria com o Projeto Costão Rochoso, integrando a iniciativa ao seu programa socioambiental. Em 2026, esse compromisso foi renovado para mais quatro anos, após avaliação de cada ciclo para determinar sua continuidade. O novo aporte financeiro destinado ao projeto será de seis milhões de reais durante esse período.

 

A gerente de projetos de responsabilidade social da Petrobras, Ana Marcela Bergamasco, ressalta que as parcerias firmadas pela companhia devem alinhar interesses ambientais e sociais, promovendo o turismo de base comunitária e a pesca sustentável, além de interagir com a comunidade local.

 

“Tem que trabalhar com a questão social, turismo de base comunitária, com a comunidade e a pesca, mas de uma maneira sustentável, tirando uma visão de que a conservação estaria competindo com alguma atividade econômica”, diz.


 

“Na verdade, para a população, elas podem andar juntas e uma contribuir com a outra”, completa Ana Marcela.


 

O acompanhamento da reportagem e do fotógrafo às atividades do projeto ocorreu a convite da Petrobras, parceira institucional do Projeto Costão Rochoso.

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