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Lula e Merz reprovam ações militares no Oriente Médio e rejeitam intervenção em Cuba

Encontro entre os líderes reforça críticas à ONU, defende reformas e novos acordos bilaterais

20/04/2026 às 18:39
Por: Redação

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva realizou um encontro com o chanceler federal da Alemanha, Friedrich Merz, nesta segunda-feira (20), em Hannover. Esta reunião marca o terceiro encontro entre os dois líderes desde o ano de 2023. Na ocasião, Lula também participou da abertura da Hannover Messe, considerada a maior feira industrial do planeta, que neste ano tem o Brasil em destaque. Além disso, o presidente esteve presente em um evento voltado a empresários dos dois países, ressaltando as oportunidades brasileiras no setor de biocombustíveis.

 

Durante a reunião bilateral, foram assinados acordos de cooperação em diferentes áreas. Após o encontro, Lula e Merz concederam uma entrevista coletiva, na qual abordaram a atual instabilidade mundial provocada por conflitos no Oriente Médio. Também discutiram ameaças recentes, como a possibilidade de intervenção militar dos Estados Unidos em Cuba, motivada por reiteradas declarações do presidente norte-americano Donald Trump.

 

Lula expressou, novamente, que considera injustificável o conflito em andamento no Oriente Médio. Ele criticou a falta de atuação da Organização das Nações Unidas (ONU) em fomentar negociações diplomáticas que possam pôr fim à instabilidade mundial.

 

"A prevalência das forças sobre o direito é a mais grave ameaça à paz e à segurança internacional. Estamos profundamente preocupados com os riscos da retomada do conflito no Irã e da escalada no Líbano. A sobrevivência do Estado Palestino e do seu povo segue ameaçada", declarou Lula.


 

O presidente brasileiro também mencionou o conflito na Ucrânia, ressaltando que a busca por paz nesse cenário está cada vez mais distante.

 

"Entre a ação dos que provocam guerra e a omissão dos que preferem se calar, a ONU está mais uma vez paralisada. Brasil e Alemanha defendem há décadas uma reforma que recupere a legitimidade do Conselho de Segurança", afirmou Lula.


 

Friedrich Merz, ao ser questionado por jornalistas, informou que solicitou uma reunião extraordinária na ONU para debater medidas diante da conjuntura. O chanceler lamentou o fechamento recente do Estreito de Ormuz, no Irã, e alertou para as repercussões econômicas do conflito, que se estendem para além do Oriente Médio.

 

"A reabertura do Estreito de Ormuz tinha sido anunciada e feita, e depois fecharam de novo. Por isso, os preços [do petróleo] aumentaram de novo. Nosso apelo vai para o Irã, de cessar-fogo. Nosso apelo vai também para os EUA para que procurem soluções diplomáticas. As implicações e consequências da guerra não atingem apenas o Oriente Médio, mas pode levar a uma desestabilização política", declarou Merz.


 

O chefe do governo alemão considerou que a estabilidade energética mundial está condicionada ao encerramento imediato dos conflitos na região.

 

Avaliação sobre Cuba e posição quanto a intervenções

 

Em relação a Cuba, Merz afirmou que a Alemanha não reconhece base legal para qualquer tipo de intervenção militar no país caribenho.

 

"Não vemos que exista algum tipo de perigo para países terceiros, então não sei porque seria necessário haver uma intervenção", disse Merz, que voltou a defender a busca por soluções por vias diplomáticas.


 

"Poder se defender não quer dizer poder interferir em outros países que têm sistemas políticos que não nos agradam", acrescentou o chanceler alemão.


 

Lula reafirmou seu posicionamento contrário a ações unilaterais em Cuba, bem como em outras regiões como Venezuela, Ucrânia, Irã e Faixa de Gaza.

 

"Sou contra a falta de respeito à integridade territorial das nações. Eu sou contra qualquer país do mundo se meter a ter ingerência política sobre como uma sociedade deve se organizar ou não", declarou Lula.


 

O presidente brasileiro também voltou a se posicionar contra o bloqueio econômico dos Estados Unidos imposto a Cuba por quase sete décadas. Segundo Lula, a prevalência da lei do mais forte já ocorreu em outros momentos históricos e não trouxe resultados positivos.

 

Parceria entre Mercosul e União Europeia

 

Na declaração à imprensa, Lula e Merz celebraram a aprovação do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, que terá vigência provisória a partir de maio. Merz destacou que o Brasil sempre defendeu a implementação do acordo, considerando um êxito conjunto que vai impulsionar a cooperação em áreas como tecnologia, inteligência artificial, economia circular, agricultura e energia.

 

Lula salientou que a entrada em vigor do acordo no próximo mês amplia as possibilidades de parceria para além do livre comércio, abrangendo temas como a valorização dos trabalhadores, direitos humanos e proteção ambiental. No entanto, o presidente brasileiro demonstrou preocupação com medidas unilaterais adotadas pela União Europeia, como o estabelecimento de mecanismos de cálculo de carbono que, segundo ele, não levam em conta as baixas emissões do setor produtivo brasileiro baseado em fontes renováveis.

 

Lula alertou que um acordo só é sustentável quando há equilíbrio nas concessões de ambas as partes. Ele criticou uma série de iniciativas europeias que, em sua avaliação, ameaçam esse equilíbrio. O presidente defendeu políticas de descarbonização, preservação ambiental e desenvolvimento industrial, mas afirmou que as metodologias devem ser compatíveis com a realidade local e com regras multilaterais.

 

Novos acordos entre Brasil e Alemanha

 

Lula informou que Brasil e Alemanha assinaram acordos de cooperação abrangendo áreas de defesa, inteligência artificial, tecnologias quânticas, infraestrutura, economia circular, eficiência energética, bioeconomia, pesquisa oceânica e estudos climáticos.

 

A Alemanha, terceira maior economia do mundo, é atualmente o quarto parceiro comercial do Brasil, com um volume de transações em bens e serviços estimado em 21 bilhões de dólares em 2025. O país europeu também figura entre os principais investidores no Brasil, com estoque superior a 40 bilhões de dólares investidos diretamente.

 

Minérios estratégicos e biocombustíveis em pauta

 

Friedrich Merz manifestou interesse do governo alemão em aprofundar o envolvimento no setor de minerais críticos, essenciais para tecnologias modernas, defesa e transição energética, como baterias, painéis solares e turbinas. O chanceler ressaltou que a oferta desses minerais enfrenta riscos de escassez ou depende de poucos fornecedores mundiais, e que o Brasil está entre os países com maiores reservas dessas matérias-primas.

 

"Estamos aprofundando nossa relação na área de matéria-prima crítica e isso é uma base central para desenvolvermos as tecnologias do futuro", afirmou Merz.


 

Lula declarou que o Brasil não pretende se limitar ao fornecimento desses minerais, mas busca atrair cadeias de processamento tecnológico para o território nacional, com o objetivo de se inserir de maneira estratégica na produção de valor agregado.

 

"Nossas reservas também nos tornam atores incontornáveis no debate sobre minerais críticos. Queremos atrair cadeias de processamento para o território brasileiro, sem fazer exportações excludentes. A colaboração em setores intensivos em tecnologia é uma prioridade para um país que não quer se limitar a ser um mero exportador de commodities".


 

No segmento de biocombustíveis, ambos os líderes ressaltaram potencial de cooperação, especialmente como alternativa para a descarbonização dos transportes. Lula destacou que não há segurança energética sem diversificação de fontes e citou a recente elevação dos preços do petróleo como indicativo de que a Europa deveria superar barreiras ideológicas em relação aos biocombustíveis. Segundo o presidente, o Brasil possui conhecimento acumulado ao longo de cinco décadas que possibilita a produção de etanol e biodiesel sem comprometer a produção de alimentos ou áreas de floresta.

 

Merz acompanhou a posição brasileira e defendeu investimentos em combustíveis renováveis, mencionando inclusive a presença de um caminhão movido a biocombustível na feira de Hannover. O chanceler reconheceu o avanço tecnológico brasileiro no setor e afirmou que a Alemanha também pode aprender com as experiências do Brasil.

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