O governo iraniano e o grupo Hezbollah creditam o cessar-fogo alcançado no Líbano à articulação conjunta dos integrantes do chamado Eixo da Resistência. Este bloco reúne organizações que se opõem às políticas de Israel e dos Estados Unidos na região do Oriente Médio. Após o anúncio do fim dos combates, o Irã autorizou novamente o trânsito de embarcações comerciais pelo Estreito de Ormuz.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, buscou associar o cessar-fogo a iniciativas lideradas pela Casa Branca. Por sua vez, o governo do Irã havia estabelecido como condição para avançar nas negociações com Washington a efetivação da trégua no território libanês.
Em nota, o Hezbollah informou que realizou 2.184 ações militares ao longo de 45 dias de hostilidades contra as forças israelenses, o que corresponde a uma média diária de 49 operações. Os ataques foram direcionados tanto contra tropas posicionadas no território do Líbano quanto contra instalações, quartéis e bases militares localizados dentro do território de Israel e em áreas palestinas ocupadas, chegando a até 160 quilômetros além da fronteira.
“Nossa mão permanecerá no gatilho em antecipação a qualquer violação ou traição pelo inimigo, enfatizando a adesão à opção de confronto e continuar a defender o país, e permanecer no pacto até o último suspiro”, diz comunicado divulgado pela TV Al-Manar, ligada ao Hezbollah.
Segundo o presidente do Parlamento iraniano, Mohammed B. Ghalibaf, líder da delegação iraniana nas negociações com os Estados Unidos, o acordo de cessar-fogo é consequência da atuação coordenada entre o Hezbollah e os demais membros do Eixo da Resistência.
“A Resistência e o Irã são uma só entidade, seja na guerra ou no cessar-fogo. Cabe à América recuar do erro de ‘Israel em primeiro lugar’. O cessar-fogo não foi senão resultado da resistência do Hezbollah e da união do Eixo da Resistência; e lidaremos com este cessar-fogo com cautela, e permaneceremos juntos até a verificação completa da vitória”, afirmou em publicação em rede social.
O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Ismail Baghaei, ressaltou que a trégua decorreu diretamente dos esforços diplomáticos conduzidos por Teerã.
“Desde o início das negociações com várias partes regionais e internacionais, incluindo as negociações em Islamabad, a República Islâmica do Irã tem consistentemente enfatizado a necessidade imperativa de um cessar-fogo simultâneo em toda a região, inclusive no Líbano”, declarou Baghaei.
No período que antecedeu a confirmação do cessar-fogo, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, reiterou que manteria a ofensiva para tomar a cidade de Bent Jbel e ampliar o controle do Sul do Líbano até o Rio Litani, distante 30 quilômetros da divisa entre os dois países.
Conforme reportado por um veículo de imprensa israelense, os ministros do governo foram informados da trégua de maneira inesperada. Netanyahu comunicou ao gabinete que aceitou os termos do cessar-fogo a pedido do presidente Trump. A decisão gerou críticas da oposição ao premiê israelense, que classificou o acordo como uma imposição externa a Israel.
Outro portal de notícias de Israel divulgou que, apesar do acordo, um oficial militar do país afirmou que tropas israelenses permaneceriam em solo libanês.
A atual etapa dos confrontos entre Israel e Líbano teve início em outubro de 2023, quando o Hezbollah iniciou investidas contra o norte de Israel em solidariedade aos palestinos diante dos ataques realizados na Faixa de Gaza. Em novembro de 2024, chegou-se a um pacto de cessar-fogo entre o grupo xiita e as autoridades de Tel Aviv. No entanto, segundo relatos, Israel não respeitou o acordo e prosseguiu com operações militares no Líbano.
Após o início das ofensivas contra o Irã em 28 de fevereiro, o Hezbollah retomou os ataques a Israel como reação às violações do cessar-fogo e em resposta ao assassinato do líder supremo iraniano, Ali Khamenei.
No dia 8 de abril, o anúncio de cessar-fogo na guerra contra o Irã foi feito, mas, de acordo com informações, Israel continuou com bombardeios em território libanês, descumprindo novamente o entendimento firmado, desta vez com mediação do Paquistão.
Teerã vinha condicionando a entrada do Líbano no acordo de trégua à continuidade das negociações com os Estados Unidos, com previsão de uma segunda rodada de conversas para os próximos dias.
O embate entre Israel e o Hezbollah tem origem nos anos 1980, quando a milícia xiita foi criada em reação à invasão e ocupação israelense no Líbano, promovida para capturar grupos palestinos que buscavam abrigo no país vizinho. No ano de 2000, o Hezbollah obteve sucesso ao expulsar as tropas israelenses do território libanês. Ao longo do tempo, o grupo transformou-se também em partido político, adquirindo cadeiras no Parlamento e participando de coalizões de governo.
Além disso, o Líbano enfrentou ofensivas israelenses em 2006, 2009 e 2011.