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Artistas utilizam diversas linguagens para expressar Brasília além das palavras

Mímico, grupo musical, estilistas e artistas plásticos reinventam a identidade de Brasília sem recorrer à linguagem verbal

21/04/2026 às 14:16
Por: Redação

Há 66 anos, Juscelino Kubitschek destacou, ao discursar na inauguração da nova capital federal, a dificuldade de expressar em palavras tudo o que sentia naquele momento considerado o mais importante de sua vida pública. Passadas mais de seis décadas, diferentes artistas também encontram desafios e motivações na busca por traduzir Brasília através de variadas formas de expressão, explorando uma complexa identidade cultural denominada por muitos como "candanguice".

 

Miqueias Paz, mímico com 62 anos, é um desses artistas que retratam a capital por meio do gesto e do silêncio. Ele utiliza movimentos corporais para representar as nuances da cidade, abordando temas como desigualdades sociais, a coragem dos migrantes e as características cotidianas de uma metrópole em constante transformação. Chegado a Brasília aos cinco anos, Miqueias teve contato com o teatro ainda na adolescência, participando de grupos voltados à experiência de pessoas de periferia e de migrantes que construíram a cidade.

 

Em sua trajetória, o artista recorda a montagem das peças "Sonho de um retirante" e "História do homem" na década de 1980, sendo as primeiras encenações apresentadas prioritariamente a agentes da ditadura, os quais exerciam censura e classificação sobre os espetáculos.

 

Miqueias iniciou sua carreira de ator em Taguatinga aos 16 anos, inspirado por companhias como o H-Papanatas, que visitavam regularmente a capital. Com o tempo, expandiu sua atuação para apresentações em espaços públicos, buscando levar arte a ocupações e promover a conscientização por direitos sociais, sempre se comunicando sem palavras, apenas com o olhar e o corpo.

 

Ele ressalta que, por atuar com expressões físicas, tornou-se alvo de pequenas violências, incluindo abordagens policiais frequentes. "Eu já começava a fazer mímica intuitivamente a partir das minhas histórias sociais: as coisas que eu vivia, que eu sentia, o ônibus apertado, a falta de grana. Esse passou a ser um eixo do meu trabalho", relata.


 

O reconhecimento de Miqueias aumentou em 1984, quando celebrou o fim da ditadura realizando o gesto de um coração na rampa do Congresso Nacional. "Eu acabei tendo mais visibilidade em relação às pessoas dos movimentos sociais e passei a ser muito chamado por sindicatos". Atualmente, dedica-se ao espaço cênico Mimo, um teatro próprio situado na comunidade periférica 26 de setembro, com a proposta de acolher artistas ambulantes do Distrito Federal.

 

Criação de novas tradições e ritmos culturais em Brasília

O grupo "Seu Estrelo e o Fuá do Terreiro", idealizado pelo pernambucano Tico Magalhães, utiliza o sotaque nordestino para imprimir uma identidade à capital do país. Surpreso pelo Cerrado e pelas histórias que envolvem a cidade, Tico criou o ritmo denominado samba pisado. Sua intenção foi dar origem a uma brincadeira e a uma tradição própria para Brasília, considerada uma cidade inventada.

 

O samba pisado possui uma mitologia própria, com enredos, personagens e festas inéditas. Tico explicou que sentiu necessidade de criar algo novo também no compasso e no pulsar musical, adotando o nome samba pisado para batizar essa criação. O ritmo é influenciado por estilos como cavalo marinho, maracatu nação, baque solto e baque virado, além de incorporar diversos outros gêneros.

 

Magalhães destaca que Brasília foi erguida em território onde se cruzaram diferentes povos indígenas, sendo um local repleto de memórias e encantamentos. Segundo ele, a capital é o resultado de um sonho, uma cidade idealizada e concretizada por pessoas vindas de várias partes do Brasil.

 

"Quando você junta gente de muito lugar, a cidade começa a apresentar suas próprias tradições. O Seu Estrelo carrega a junção de tanta gente. A cidade inventa a gente e a gente inventa a cidade".


 

Moda inspirada na arquitetura e história da capital

O casal de estilistas Mackenzo, de 27 anos, nascido em Samambaia, e Felipe Manzoli, de 29, de Planaltina, ambos de regiões administrativas periféricas, transforma elementos arquitetônicos de Brasília em roupas. Felipe aprendeu a costurar aos 10 anos de idade com sua avó, enquanto Mackenzo, que também era músico, desenvolvia croquis ousados inspirados pelas paisagens observadas da janela do ônibus. Mackenzo relata que tias baianas trabalharam diretamente com Juscelino Kubitschek, participando da construção da cidade e transmitindo-lhe a paixão pela arquitetura.

 

Segundo os estilistas, confeccionar uma peça de vestuário exige conhecimentos próximos aos da arquitetura, já que é preciso considerar superfícies planas ou curvas, comparando o corpo ao terreno de uma obra. Para Mackenzo, Brasília vai além dos seus prédios icônicos, adquirindo um caráter quase mítico.

 

Ambos afirmam que cada coleção produzida é uma homenagem à trajetória de suas famílias. Eles ressaltam que o trabalho é inspirado no grande sonho que foi a construção de Brasília, lembrando que a realização desse sonho representou uma realidade difícil para quem o tornou possível.

 

Os estilistas ainda identificam nas roupas referências aos símbolos democráticos, ao centro das decisões políticas, a manifestações e à efervescência cultural da capital. Eles descrevem-se como muito metódicos e dramáticos, sempre refletindo sobre como transformar elementos do cotidiano e da arquitetura em peças de vestuário.

 

Influências arquitetônicas e urbanas no processo criativo

A arquiteta e estilista Nara Resende, de 54 anos, relata que as formas simples e a geometria constituem a base de seu processo criativo. Ela considera que manter sua marca em Brasília reforça o quanto seu repertório foi construído a partir dessas influências arquitetônicas.

 

Nara enfatiza que a cidade é permeada por expressões artísticas, e a presença da natureza cria um contraste marcante com o estilo brutalista das edificações. Para ela, essa convivência é fonte direta de inspiração, principalmente nas ruas, onde a vida urbana é intensa e as pessoas circulam constantemente.

 

Obras visuais e a busca pelas cores do movimento urbano

Isabella Stephan, artista visual de 41 anos, trabalha tanto com telas quanto com estamparia. Ela afirma que as cores de Brasília são uma referência constante para traduzir aquilo que considera a "alma da cidade" em suas produções. Suas obras transitam entre o figurativo e o abstrato, sempre exaltando a alegria como tema central.

 

Inicialmente, Isabella produzia apenas telas, que posteriormente foram comercializadas. A partir daí, decidiu criar vestuário a partir de suas pinturas. Ela observa que Brasília é marcada pelo predomínio do branco e do concreto em sua arquitetura, formando uma cidade repleta de linhas. Em suas peças, a artista decidiu representar a diversidade de cores, movimento e alegria presentes no cotidiano dos habitantes da capital.

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